O cuidado que vai além da cirurgia: duas histórias, duas descobertas inesperadas no Outubro Rosa


Duas histórias mostram por que o cuidado médico continua antes, durante e depois da cirurgia.

cuidado que vai além da cirurgia: duas histórias, duas descobertas inesperadas

Outubro Rosa: como a avaliação médica e os exames antes e depois da cirurgia podem revelar alterações importantes para a saúde, inclusive nas mamas masculinas.

Dr. Leonardo Fernandes de Souza Aguiar | Cirurgião Plástico | Blumenau, SC

A descoberta foi inesperada. O cuidado, não.

Essa frase resume duas experiências recentes da minha prática médica que reforçaram uma convicção construída ao longo de mais de duas décadas de atuação: a cirurgia plástica vai muito além da transformação da aparência.

Quando um paciente procura um cirurgião plástico, geralmente existe um desejo específico. Pode ser rejuvenescer o olhar, melhorar o contorno corporal ou corrigir alguma característica que provoca desconforto.

Entretanto, antes de qualquer procedimento, existe uma pessoa com uma história, condições de saúde, expectativas e necessidades que precisam ser compreendidas.

Recentemente, duas situações distintas demonstraram como uma avaliação criteriosa e a continuidade da assistência podem revelar informações importantes, mesmo quando não existem sinais evidentes de doença.

Neste mês de Outubro Rosa, compartilhar essas experiências também é uma oportunidade de ampliar a discussão sobre prevenção, diagnóstico precoce e saúde das mamas, incluindo condições que podem afetar os homens e que muitas vezes recebem pouca atenção.

As histórias a seguir são apresentadas de forma resumida, preservando a identidade dos pacientes e omitindo informações pessoais.

Primeira história: quando a investigação antes da cirurgia revela algo inesperado

Uma paciente procurou atendimento para realizar uma cirurgia plástica.

Durante a avaliação pré-operatória, considerei importante solicitar exames complementares para investigar suas condições de saúde antes do procedimento.

Essa investigação contribuiu para a identificação de um câncer em fase inicial.

A descoberta permitiu que a paciente fosse encaminhada para o tratamento adequado, realizado cirurgicamente.

O que inicialmente seria uma avaliação para uma cirurgia plástica acabou trazendo à tona uma condição de saúde que precisava de atenção prioritária.

Essa experiência reforçou algo que considero essencial na medicina: a consulta pré-operatória não deve ser tratada apenas como uma formalidade ou uma etapa burocrática antes da cirurgia.

É um momento de escuta, avaliação clínica, identificação de fatores de risco e tomada de decisões.

Os exames complementares, quando indicados, não servem apenas para verificar se o paciente apresenta condições de realizar determinado procedimento. Eles também podem revelar alterações que exigem investigação adicional.

Isso não significa que todos os pacientes devam realizar uma grande quantidade de exames. A investigação precisa ser individualizada, fundamentada na história clínica, no exame físico e nas evidências científicas.

A medicina de qualidade não é aquela que solicita mais exames indiscriminadamente, mas aquela que sabe quando investigar, o que investigar e como interpretar os resultados.

Nesse caso, a avaliação pré-operatória contribuiu para que uma doença importante fosse identificada precocemente.

Segunda história: quando a descoberta acontece depois da cirurgia

A segunda experiência ocorreu com um paciente submetido a uma cirurgia para correção de ginecomastia.

A ginecomastia é caracterizada pelo desenvolvimento excessivo do tecido glandular mamário masculino. Trata-se de uma condição relativamente comum, que pode provocar desconforto físico, constrangimento e insatisfação com a aparência.

Na avaliação pré-operatória, não havia suspeita clínica ou radiológica de uma lesão mamária atípica.

A cirurgia foi realizada conforme o planejamento.

Entretanto, existe uma conduta que adoto rotineiramente em minhas cirurgias de ginecomastia: o tecido glandular retirado é sempre encaminhado para exame anatomopatológico.

Esse exame permite que o patologista analise microscopicamente o material, identificando características que não podem ser reconhecidas apenas pela aparência do tecido durante a cirurgia.

Foi justamente essa análise que revelou uma alteração inesperada: uma hiperplasia ductal atípica (HDA).

O diagnóstico foi complementado por um estudo imuno-histoquímico, que utiliza marcadores específicos para auxiliar na caracterização das células e das estruturas do tecido.

A hiperplasia ductal atípica não é câncer. Trata-se de uma proliferação de células dos ductos mamários com características microscópicas atípicas.

Em mulheres, essa alteração é reconhecida como uma lesão mamária de alto risco, associada a maior probabilidade de desenvolvimento futuro de câncer de mama.

Em homens, entretanto, é um achado incomum, e seu significado prognóstico ainda não está tão bem estabelecido.

Por isso, a identificação dessa alteração exige interpretação cuidadosa e avaliação individualizada, considerando os achados histopatológicos e as características clínicas do paciente.

O aspecto mais importante dessa história é que não existia suspeita prévia da alteração.

Ela foi identificada porque o tecido retirado durante a cirurgia foi submetido à análise anatomopatológica.

A descoberta foi ocasional, mas o encaminhamento do material para investigação não foi.

Fazia parte de uma conduta estabelecida de cuidado.

Outubro Rosa: a saúde das mamas também merece atenção nos homens

Outubro é tradicionalmente marcado pela campanha Outubro Rosa, um movimento internacional de conscientização sobre o câncer de mama, a importância do diagnóstico precoce e os cuidados com a saúde.

Embora a campanha seja frequentemente associada às mulheres, existe um aspecto que merece maior atenção: os homens também possuem tecido mamário e podem desenvolver alterações benignas, lesões atípicas e, mais raramente, câncer de mama.

O câncer de mama masculino representa aproximadamente 1% dos casos da doença. Por ser incomum e pouco discutido, muitas pessoas desconhecem essa possibilidade.

É importante esclarecer que a ginecomastia, caracterizada pelo aumento benigno do tecido glandular mamário masculino, não é considerada, por si só, uma lesão pré-cancerígena.

Entretanto, isso não significa que todas as alterações mamárias em homens devam ser atribuídas automaticamente à ginecomastia.

Nódulos suspeitos, alterações na pele, retração do mamilo ou secreção mamilar, especialmente sanguinolenta, merecem avaliação médica.

No caso apresentado neste artigo, o paciente não apresentava suspeita clínica ou radiológica de uma lesão atípica. A hiperplasia ductal atípica foi identificada incidentalmente durante o exame anatomopatológico do tecido retirado na cirurgia de ginecomastia.

Embora a hiperplasia ductal atípica não seja câncer, sua identificação exige interpretação especializada. Em homens, trata-se de um achado incomum, e seu significado em relação ao risco futuro de câncer de mama ainda não está completamente estabelecido.

Essa experiência amplia uma reflexão importante durante o Outubro Rosa: a conscientização sobre a saúde mamária não deve se limitar a um único gênero, nem apenas à realização de exames de rastreamento.

Ela também envolve reconhecer alterações, buscar avaliação médica quando necessário, interpretar corretamente os exames e garantir a continuidade do acompanhamento.

O Outubro Rosa é uma oportunidade para lembrar que o diagnóstico precoce depende de informação, acesso à assistência e decisões médicas fundamentadas em evidências científicas.

Cuidar da saúde das mamas também é um assunto de homens.

Isso não significa que homens sem sintomas devam realizar mamografias de rotina. A necessidade de investigação ou rastreamento deve ser avaliada individualmente, especialmente na presença de sintomas ou fatores de risco específicos.

O que essas duas histórias têm em comum?

À primeira vista, são situações bastante diferentes.

Na primeira, uma investigação realizada antes de uma cirurgia contribuiu para identificar precocemente um câncer.

Na segunda, a análise de um tecido retirado durante uma cirurgia revelou uma alteração mamária atípica até então desconhecida.

Em um caso, a informação surgiu antes do procedimento. No outro, depois.

Mas existe um princípio que conecta as duas experiências:

A responsabilidade do médico não está limitada ao ato cirúrgico.

O cuidado começa na primeira consulta, quando ouvimos o paciente, compreendemos suas expectativas e avaliamos suas condições de saúde.

Continua durante o planejamento, na escolha da técnica, na avaliação dos riscos e na realização do procedimento.

E permanece depois da cirurgia, com o acompanhamento da recuperação, a interpretação dos exames e a orientação sobre eventuais descobertas.

É importante também compreender que nem toda alteração encontrada representa uma doença grave e que nem todo achado incidental modifica o prognóstico de um paciente.

O verdadeiro valor da investigação está em produzir informações clinicamente relevantes e utilizá-las de maneira responsável.

A importância do raciocínio clínico em uma medicina cada vez mais tecnológica

Vivemos um período extraordinário de transformação da medicina.

Novas tecnologias, exames diagnósticos, ferramentas digitais e sistemas de inteligência artificial ampliam nossa capacidade de organizar informações, reconhecer padrões e apoiar decisões clínicas.

Entretanto, a tecnologia não substitui o julgamento médico.

Um exame não deve ser interpretado isoladamente. Um resultado precisa ser relacionado à história do paciente, aos achados clínicos e ao conhecimento científico disponível.

Da mesma forma, a inteligência artificial pode auxiliar determinadas etapas do atendimento, mas suas informações precisam ser verificadas e contextualizadas pelo profissional responsável.

As duas histórias apresentadas neste artigo não demonstram que uma tecnologia específica tenha sido responsável pelas descobertas.

Elas demonstram algo mais fundamental: a importância de integrar conhecimento médico, investigação criteriosa, exames complementares e acompanhamento contínuo.

A tecnologia deve ampliar nossa capacidade de cuidar, não substituir a responsabilidade de pensar, decidir e acompanhar.

Esse é um dos princípios que defendo quando abordo o conceito de Médico AI-First: utilizar a inteligência artificial de forma ética, responsável e inteligente, sempre preservando o protagonismo do raciocínio clínico e a centralidade do paciente.

Porque mais tecnologia, isoladamente, não significa necessariamente melhor medicina.

A cirurgia plástica também pode contribuir para o diagnóstico precoce?

Essa pergunta merece uma reflexão cuidadosa.

A cirurgia plástica não substitui as estratégias tradicionais de prevenção, rastreamento e diagnóstico precoce de doenças.

Entretanto, a avaliação realizada pelo cirurgião plástico pode representar uma oportunidade adicional para identificar condições de saúde que mereçam investigação.

Durante uma consulta, podem surgir informações relacionadas a alterações metabólicas, cardiovasculares, hormonais ou outras condições clínicas relevantes.

O cirurgião plástico deve reconhecer os limites de sua atuação, solicitar investigações quando indicadas e encaminhar o paciente para outros especialistas sempre que necessário.

No caso da ginecomastia, por exemplo, a avaliação pode envolver a investigação de causas hormonais, medicamentosas ou sistêmicas, conforme a apresentação clínica.

Já o exame anatomopatológico do tecido retirado pode acrescentar informações que não estavam disponíveis antes da cirurgia.

Portanto, mais do que afirmar que a cirurgia plástica é uma forma de prevenção, considero correto dizer que uma prática cirúrgica responsável pode contribuir para a identificação de problemas de saúde e para a continuidade do cuidado.

O legado de Ivo Pitanguy: enxergar a pessoa além da cirurgia

Durante minha formação na Escola do Professor Ivo Pitanguy, no Rio de Janeiro, tive a oportunidade de conviver com uma visão da cirurgia plástica que ultrapassava os aspectos puramente técnicos.

O conhecimento da anatomia, o domínio das técnicas cirúrgicas e a busca por resultados adequados sempre estiveram associados à compreensão da dimensão humana de cada paciente.

Essa formação influenciou profundamente minha maneira de exercer a medicina.

Uma pessoa não chega ao consultório apenas com uma pálpebra que deseja corrigir, uma mama que pretende modificar ou um abdômen que gostaria de melhorar.

Ela chega com sua história, suas expectativas, seus receios e suas condições particulares de saúde.

Cabe ao médico compreender esse conjunto de fatores e avaliar se a cirurgia é realmente indicada, qual é o momento adequado para realizá-la e quais cuidados são necessários.

Em determinadas situações, a decisão mais importante pode ser justamente adiar um procedimento para investigar uma alteração clínica.

Em outras, pode ser reconhecer um achado inesperado e orientar o acompanhamento necessário.

A técnica cirúrgica é fundamental. Mas ela precisa estar a serviço de uma visão mais ampla do paciente.

A descoberta foi inesperada. O cuidado, não.

As duas experiências que compartilho neste artigo tiveram circunstâncias diferentes e desfechos clínicos distintos.

Uma envolveu o diagnóstico precoce de um câncer durante a investigação pré-operatória.

A outra revelou uma hiperplasia ductal atípica no exame anatomopatológico de um tecido retirado durante uma cirurgia de ginecomastia.

Não seria correto afirmar que todos os exames pré-operatórios identificam doenças ocultas ou que toda análise anatomopatológica revela alterações importantes.

Também não podemos afirmar que a identificação de uma lesão atípica significa que um câncer foi evitado.

O que essas histórias demonstram é a importância de manter uma postura médica atenta, criteriosa e comprometida com cada etapa da assistência.

Porque a qualidade do cuidado não se mede apenas pelo resultado visível de uma cirurgia.

Ela também está presente nas decisões que tomamos antes do procedimento, nas informações que buscamos e na responsabilidade com que acompanhamos cada paciente.

Neste Outubro Rosa, desejo que essas histórias também sirvam como um convite à reflexão.

A conscientização sobre o câncer de mama é fundamental, mas o cuidado com a saúde começa muito antes de um diagnóstico e não termina com a realização de um tratamento.

Ele está presente na escuta, na avaliação criteriosa, na investigação adequada e no acompanhamento de cada paciente.

E isso vale para mulheres e homens.

“A cirurgia é apenas uma etapa do cuidado. Nossa responsabilidade começa muito antes de entrar no centro cirúrgico e continua muito depois de sair dele.”

Dr. Leonardo Fernandes de Souza Aguiar
Cirurgião Plástico — Blumenau, Santa Catarina
Formação em Cirurgia Plástica pela Escola Ivo Pitanguy


Valorize o cuidado completo com a sua saúde