Uma homenagem ao Professor Ivo Pitanguy e às lições que continuam orientando a medicina diante da inteligência artificial.
Dia do Professor: o legado de Ivo Pitanguy, as lições que carrego e o futuro da medicina
Da Escola Ivo Pitanguy, no Rio de Janeiro, ao Congresso Internacional da AEXPI, em Buenos Aires: uma reflexão sobre o privilégio de aprender, a responsabilidade de ensinar e o papel da inteligência artificial na formação das novas gerações de médicos.
Dr. Leonardo Fernandes de Souza Aguiar | Cirurgião Plástico | Blumenau, SC
O professor que nos ensinou a honrar esse título
O Dia do Professor, celebrado em 15 de outubro, sempre me faz recordar uma pessoa que marcou profundamente minha formação médica e minha maneira de compreender a profissão: o Professor Ivo Pitanguy.
Existe uma lembrança especial que guardo dos anos em que tive o privilégio de aprender com ele.
Pitanguy adorava ser chamado de Professor.
Embora fosse reconhecido internacionalmente como um dos grandes nomes da cirurgia plástica, aquele título tinha um significado especial para ele.
E, com o passar dos anos, compreendi melhor o motivo.
Ser professor não é apenas transmitir conhecimento. É assumir a responsabilidade de compartilhar experiências, formar pessoas, estimular o pensamento crítico e preparar novas gerações para enfrentar desafios que talvez ainda nem existam.
O Professor Pitanguy nos ensinou a honrar esse título.
Não apenas pelo conhecimento técnico, mas pela generosidade em compartilhá-lo, pelo respeito aos pacientes e pela compreensão de que a medicina é, antes de tudo, uma atividade humana.
Neste Dia do Professor, quero compartilhar um pouco dessa história e de como seus ensinamentos continuam presentes na minha trajetória, inclusive em um momento recente e muito especial: minha participação como palestrante no Congresso Internacional da Associação dos Ex-Alunos do Professor Ivo Pitanguy (AEXPI), realizado em Buenos Aires, na Argentina.
Três anos que transformaram minha maneira de enxergar a medicina
Entre 2007 e 2009, tive a oportunidade de realizar minha formação em cirurgia plástica no Instituto Ivo Pitanguy, no Rio de Janeiro.
Foram três anos de aprendizado intenso, convivendo com professores, cirurgiões e colegas que compartilhavam um compromisso com a excelência técnica e a formação médica.
Naquela época, eu já havia concluído minha graduação em Medicina e minha residência em Cirurgia Geral.
Entretanto, ingressar na Escola Pitanguy representava muito mais do que aprender uma nova especialidade.
Significava fazer parte de uma tradição de ensino que ultrapassava fronteiras e reunia médicos de diferentes países, culturas e experiências.
O aprendizado acontecia nas aulas, nas discussões de casos, nos ambulatórios e nos centros cirúrgicos.
Mas algumas das lições mais importantes não estavam escritas nos livros.
Estavam na maneira de ouvir um paciente, de discutir uma indicação cirúrgica, de reconhecer nossas limitações e de compreender que cada pessoa possui uma história que vai muito além da região do corpo que deseja modificar.
Foi nesse ambiente que comecei a compreender uma dimensão fundamental da cirurgia plástica: a técnica é indispensável, mas o conhecimento técnico, isoladamente, não é suficiente para formar um bom médico.
É necessário desenvolver julgamento clínico, responsabilidade, sensibilidade e capacidade de aprender continuamente.
Esses ensinamentos continuam orientando minha prática médica em Blumenau, Santa Catarina.
O verdadeiro legado de um professor não termina na sala de aula
Com o passar dos anos, percebi que o legado de um grande professor não pode ser medido apenas pelo número de alunos que formou.
Ele também está presente naquilo que esses alunos fazem com o conhecimento recebido.
Quando um médico compartilha uma experiência com outro colega, quando participa da formação de um residente ou quando questiona uma prática para torná-la mais segura, existe ali uma continuidade do processo de ensino.
Essa talvez seja uma das maiores contribuições da Escola Pitanguy.
Seus ex-alunos estão espalhados por diferentes regiões do Brasil e do mundo, levando consigo não apenas técnicas cirúrgicas, mas também uma identidade construída em torno do aprendizado, da troca de experiências e da valorização do ser humano.
Ao longo da minha trajetória, tive a oportunidade de participar de iniciativas relacionadas à educação médica, inovação e transformação digital na saúde.
Atuei como professor e curador em programas de formação de médicos e profissionais da saúde, incluindo projetos de desenvolvimento de lideranças e capacitação em inovação.
Essas experiências me fizeram perceber que ensinar também é uma forma extraordinária de aprender.
Quanto mais compartilhamos conhecimento, mais somos convidados a questionar nossas próprias certezas.
E essa disposição para continuar aprendendo talvez seja uma das características mais importantes de um verdadeiro professor.
Buenos Aires, 2026: o reencontro com a Escola Pitanguy
Em setembro de 2026, tive a alegria de participar do Congresso Internacional da AEXPI, realizado em Buenos Aires, na Argentina.
A Associação dos Ex-Alunos do Professor Ivo Pitanguy representa um elo entre diferentes gerações de cirurgiões plásticos que compartilham uma mesma origem acadêmica.
Participar desse encontro foi uma experiência especialmente significativa.
Reencontrar colegas, compartilhar experiências e acompanhar discussões sobre os avanços da cirurgia plástica é também uma maneira de reconhecer a importância da escola que nos formou.
Mas, desta vez, minha participação teve um significado adicional.
Tive a oportunidade de retornar a esse ambiente de aprendizado não apenas como ex-aluno, mas também como palestrante.
E o tema que levei ao congresso representava justamente uma conexão entre o legado que recebemos e os desafios que teremos pela frente.
Minha apresentação abordou a inteligência artificial e o futuro da prática médica, a partir de uma reflexão que considero cada vez mais necessária:
Como preservar a arte, os valores e a responsabilidade da Escola Pitanguy em uma medicina cada vez mais influenciada pela inteligência artificial?
A arte da Escola Pitanguy na era da inteligência artificial
O tema da minha participação no congresso foi:
A Arte da Escola Pitanguy na Era da IA — O Cirurgião Plástico AI-First
A proposta não era apresentar a inteligência artificial como uma tecnologia capaz de substituir o médico.
Muito pelo contrário.
Meu objetivo foi discutir como essas ferramentas podem ampliar nossa capacidade de aprender, analisar informações, organizar conhecimentos e apoiar decisões, sem comprometer aquilo que considero essencial na medicina: o raciocínio clínico, a ética e a relação humana com o paciente.
Vivemos um momento em que a inteligência artificial começa a transformar profundamente diferentes áreas da saúde.
Ferramentas capazes de interpretar informações, auxiliar na documentação clínica, apoiar pesquisas científicas e organizar grandes volumes de dados estão se tornando cada vez mais acessíveis.
Entretanto, existe uma diferença importante entre utilizar uma ferramenta tecnológica e desenvolver uma nova mentalidade profissional.
É justamente essa diferença que procuro explorar por meio do conceito de Médico AI-First.
Ser um médico AI-First não significa utilizar inteligência artificial em todas as situações.
Significa compreender suas possibilidades, reconhecer suas limitações e saber quando sua utilização pode realmente contribuir para melhorar a prática médica.
Essa mentalidade precisa estar fundamentada em três pilares:
Ética: respeitar o paciente, a confidencialidade das informações, a legislação e as normas que orientam o exercício da medicina.
Responsabilidade: utilizar ferramentas e informações fundamentadas em evidências científicas, reconhecendo limitações e mantendo a supervisão médica.
Inteligência: transformar dados e informações em decisões clínicas mais bem fundamentadas, sempre considerando as necessidades individuais de cada paciente.
A tecnologia deve estar a serviço da medicina, e não o contrário.
Por isso, uma das mensagens que procuro transmitir é:
MORE AI ≠ BETTER MEDICINE
Mais inteligência artificial não significa, necessariamente, melhor medicina.
O verdadeiro avanço acontece quando conseguimos utilizar novas ferramentas para ampliar nossa capacidade de cuidar.
O que o Professor Pitanguy nos ensinaria sobre inteligência artificial?
Essa é uma pergunta que frequentemente me faço.
Naturalmente, não podemos afirmar como o Professor Pitanguy reagiria às tecnologias atuais ou quais ferramentas escolheria utilizar.
Mas podemos refletir sobre os princípios que orientavam sua atuação como médico e educador.
O conhecimento científico evolui.
As técnicas cirúrgicas evoluem.
Os instrumentos, os equipamentos e os métodos de diagnóstico também evoluem.
E a maneira como ensinamos medicina precisa acompanhar essas transformações.
Entretanto, existem valores que não deveriam mudar.
A responsabilidade com o paciente.
O compromisso com o conhecimento.
A humildade para reconhecer aquilo que ainda não sabemos.
A generosidade para compartilhar experiências.
E a compreensão de que nenhuma tecnologia substitui a dimensão humana do cuidado.
Ao preparar minha apresentação para o congresso da AEXPI, procurei estabelecer justamente essa conexão.
A inteligência artificial pode transformar a maneira como aprendemos e praticamos medicina, mas não deve modificar os princípios fundamentais que orientam nossas decisões.
O desafio das novas gerações não será apenas dominar novas tecnologias.
Será aprender a utilizá-las sem perder aquilo que nos torna médicos.
Do aluno ao professor: a responsabilidade de compartilhar
Estar em Buenos Aires, diante de colegas que compartilham a história da Escola Pitanguy, me fez refletir sobre minha própria trajetória.
Anos atrás, eu estava no Rio de Janeiro, sentado em uma sala de aula, procurando absorver o máximo possível dos ensinamentos dos meus professores.
Hoje, tenho a oportunidade de compartilhar parte do conhecimento e das experiências que acumulei ao longo da carreira.
Essa mudança de posição traz uma responsabilidade especial.
Porque ensinar medicina não significa apenas apresentar respostas.
Significa estimular perguntas.
Não significa apenas demonstrar como executar uma técnica.
Significa explicar por que determinada conduta deve ser escolhida, quais são seus riscos e em quais situações ela pode não ser a melhor alternativa.
Na era da inteligência artificial, essa responsabilidade se torna ainda maior.
O acesso à informação deixou de ser uma das principais dificuldades do aprendizado.
Hoje, um estudante ou profissional pode consultar, em poucos segundos, uma quantidade extraordinária de conteúdos.
O desafio está em desenvolver a capacidade de distinguir informações confiáveis de informações equivocadas, interpretar evidências e transformar conhecimento em decisões responsáveis.
Talvez o papel mais importante do professor, daqui para a frente, não seja apenas ensinar o que sabemos, mas ajudar as novas gerações a pensar sobre aquilo que ainda não sabemos.
O futuro da educação médica precisa preservar o melhor do passado
Ao observar as transformações que estão acontecendo na medicina, acredito que estamos diante de uma oportunidade extraordinária.
A inteligência artificial poderá contribuir para personalizar processos educacionais, facilitar o acesso ao conhecimento, apoiar simulações clínicas e ampliar as possibilidades de aprendizagem.
Mas nenhuma dessas ferramentas elimina a importância da experiência humana.
O aprendizado médico também acontece pela observação.
Pela convivência com profissionais mais experientes.
Pela discussão de casos reais.
Pelo reconhecimento dos próprios erros e limitações.
E, principalmente, pelo exemplo.
Um professor pode ensinar anatomia por meio de uma aula.
Pode ensinar uma técnica cirúrgica durante um procedimento.
Mas valores como ética, respeito, prudência e responsabilidade são transmitidos, sobretudo, pela maneira como ele exerce a profissão.
Essa é uma das lições mais importantes que levo da minha formação na Escola Pitanguy.
A tecnologia pode ampliar o acesso ao conhecimento. Mas o exemplo continua sendo uma das formas mais poderosas de ensinar.
Dia do Professor: uma homenagem a quem nos ensinou a continuar aprendendo
Neste Dia do Professor, minha homenagem vai especialmente ao Professor Ivo Pitanguy e a todos os professores que participaram da minha formação.
Alguns ensinamentos permanecem conosco durante toda a vida.
Outros só conseguimos compreender verdadeiramente muitos anos depois, quando passamos a enfrentar nossos próprios desafios profissionais.
Hoje, ao olhar para minha trajetória, reconheço que uma parte importante daquilo que procuro transmitir em minhas aulas e palestras nasceu das experiências vividas durante minha formação.
A recente participação no Congresso Internacional da AEXPI, em Buenos Aires, foi mais uma oportunidade de reconhecer esse legado.
Foi também um momento de refletir sobre o futuro.
Sobre como preparar médicos para uma realidade em que a inteligência artificial estará cada vez mais presente.
Sobre como utilizar a tecnologia para melhorar a experiência dos pacientes e dos profissionais.
E, principalmente, sobre como preservar os valores humanos que devem orientar a medicina, independentemente das ferramentas disponíveis.
O Professor Pitanguy gostava de ser chamado de Professor.
Hoje, compreendo que esse título não representa apenas uma posição acadêmica.
Representa um compromisso permanente com o conhecimento, com as pessoas e com as próximas gerações.
E talvez a melhor maneira de homenagear nossos professores seja continuar fazendo aquilo que eles nos ensinaram: estudar, questionar, compartilhar e aprender.
Porque o verdadeiro legado de um professor não está apenas naquilo que ele ensinou.
Está naquilo que seus alunos continuam ensinando.
Obrigado, Professor Pitanguy, por nos ensinar a honrar esse título.
Dr. Leonardo Fernandes de Souza Aguiar
Cirurgião Plástico — Blumenau, Santa Catarina
Formação em Cirurgia Plástica pela Escola Ivo Pitanguy (2007–2009)