Por que não publico fotos de antes e depois? Ética, evidência e dados na cirurgia plástica
Uma reflexão sobre como ética, ciência e dados ajudam a construir decisões responsáveis em cirurgia plástica.
Quem procura informações sobre cirurgia plástica nas redes sociais provavelmente já se acostumou a encontrar fotografias de antes e depois.
Por isso, algumas pessoas podem se perguntar por que, mesmo sendo cirurgião plástico, escolhi não utilizar esse tipo de imagem como uma das principais formas de apresentar meu trabalho.
A resposta envolve três princípios que considero fundamentais na minha prática: ética, evidência científica e tomada de decisão baseada em dados.
Essa é uma escolha pessoal de comunicação.
A regulamentação atual do Conselho Federal de Medicina permite a demonstração de resultados e o chamado “antes e depois” em determinadas condições e com finalidade educativa. Portanto, não seria correto dizer que essas imagens são simplesmente proibidas.
Minha escolha é outra.
Prefiro que um paciente compreenda como penso, como estabeleço uma indicação e quais critérios utilizo para tomar uma decisão, em vez de escolher um procedimento principalmente porque gostou da fotografia do resultado de outra pessoa.
O CFM permite publicar fotos de antes e depois?
Sim, desde que sejam respeitadas regras específicas.
A Resolução CFM nº 2.336/2023 e o Manual de Publicidade Médica permitem a utilização de imagens de pacientes e a demonstração de resultados com finalidade educativa, dentro dos critérios estabelecidos pelo Conselho Federal de Medicina.
LINK SUGERIDO: transformar “Resolução CFM nº 2.336/2023 e o Manual de Publicidade Médica”
O chamado antes e depois, portanto, não deve ser apresentado simplesmente como uma fotografia isolada destinada a demonstrar um resultado.
A comunicação deve contextualizar a condição tratada, as indicações, os fatores capazes de influenciar os resultados e possíveis complicações descritas na literatura científica.
Nas demonstrações de resultados, o CFM estabelece ainda critérios para apresentação de diferentes pacientes e possíveis evoluções, incluindo resultados satisfatórios, insatisfatórios e complicações. Quando aplicável, também devem ser considerados diferentes biotipos, faixas etárias e momentos da evolução.
Existe uma razão importante para isso:
uma fotografia mostra um resultado. Ela não explica tudo o que foi necessário para chegar até ele.
Por que, então, escolhi não publicar antes e depois?
Porque considero que uma fotografia pode simplificar excessivamente uma decisão que, na realidade, é complexa.
Imagine duas pessoas procurando uma blefaroplastia porque percebem excesso de pele nas pálpebras.
A queixa pode parecer semelhante.
Entretanto, uma pode apresentar predominantemente excesso de pele, enquanto outra pode ter também alteração da posição da sobrancelha, ptose palpebral, características diferentes das bolsas de gordura, alterações da superfície ocular ou outras particularidades anatômicas.
O mesmo raciocínio vale para uma cirurgia das mamas, uma abdominoplastia ou um lifting facial.
A fotografia do resultado de uma pessoa não permite prever o resultado de outra.
Anatomia, idade, qualidade dos tecidos, condições clínicas, cicatrização, técnica indicada, características individuais e evolução pós-operatória interferem no resultado.
Por isso, prefiro utilizar meu espaço de comunicação para explicar como essas decisões são tomadas.
Ética também significa comunicar limites
Cirurgia plástica trabalha diretamente com expectativas.
Isso aumenta nossa responsabilidade ao comunicar resultados.
Uma fotografia particularmente bonita pode ser verdadeira e ainda assim representar apenas uma das muitas evoluções possíveis de determinado procedimento.
Quando uma sequência de resultados selecionados é apresentada sem contexto suficiente, existe o risco de o paciente interpretar aquelas imagens como uma previsão daquilo que acontecerá com ele.
Mas medicina não funciona dessa maneira.
Resultado anterior não é promessa de resultado futuro.
A própria regulamentação do Conselho Federal de Medicina procura evitar comunicações que garantam ou insinuem bons resultados ou utilizem representações visuais de maneira abusiva, enganosa ou sedutora, induzindo à percepção de garantia de resultado.
LINK SUGERIDO: inserir em “regulamentação do Conselho Federal de Medicina” o link para o capítulo do Manual de Publicidade Médica sobre proibições gerais.
Minha opção é concentrar a comunicação naquilo que considero mais útil para uma decisão consciente:
diagnóstico → indicação → possibilidades → limitações → riscos → decisão compartilhada.
Responsabilidade também significa separar ciência de pseudociência
Existe outro princípio que considero inseparável da ética médica: nem tudo o que é novo, popular ou amplamente divulgado possui evidência científica suficiente para ser incorporado à prática.
Redes sociais podem transformar rapidamente uma técnica, tecnologia ou tratamento em tendência.
Popularidade, entretanto, não é sinônimo de evidência.
Antes de incorporar uma nova abordagem à minha prática, procuro compreender quais estudos sustentam aquela proposta, como foram realizados, quantos pacientes foram avaliados, quais desfechos foram analisados, quais limitações existem e se os resultados são consistentes com outras evidências disponíveis.
Também considero a qualidade e a hierarquia das evidências.
Uma opinião, um relato isolado ou uma experiência individual pode levantar uma hipótese interessante, mas não possui necessariamente o mesmo peso de estudos metodologicamente mais robustos, revisões sistemáticas, metanálises ou diretrizes construídas a partir de um conjunto consistente de evidências.
Isso não significa rejeitar inovação.
Significa inovar com critério.
Uma nova tecnologia deve entrar na prática médica quando existem razões para acreditar que acrescenta valor ao cuidado do paciente — e não simplesmente porque produz uma boa narrativa para as redes sociais.
Medicina baseada em evidências não significa ignorar experiência
A evidência científica é fundamental, mas não toma decisões sozinha.
Um artigo científico descreve os resultados encontrados em determinada população estudada. Na consulta, diante de mim, existe uma pessoa.
Por isso, a tomada de decisão clínica precisa integrar diferentes elementos:
melhor evidência científica disponível + experiência clínica + características individuais + valores e expectativas do paciente.
É nessa interseção que procuro construir minhas decisões.
A experiência cirúrgica ajuda a interpretar anatomia, reconhecer padrões, antecipar dificuldades e compreender determinados trade-offs.
A literatura científica ajuda a verificar se aquilo que observamos na prática encontra sustentação além da experiência individual.
E os dados daquele paciente ajudam a determinar se determinada estratégia realmente faz sentido para ele.
O que significa ter uma prática médica orientada por dados?
Significa tentar substituir impressões vagas por informações que possam ser analisadas.
Na avaliação de um paciente, dados podem incluir história clínica, exames, medicamentos, medidas anatômicas, documentação fotográfica clínica, informações sobre procedimentos anteriores e evolução pós-operatória, além de outros indicadores relevantes para cada situação.
Essas informações ajudam a responder perguntas mais importantes do que simplesmente:
“Qual técnica está na moda?”
Prefiro perguntar:
Qual é o problema que estamos tentando resolver?
Quais dados sustentam esse diagnóstico?
Quais alternativas existem?
Qual evidência sustenta cada alternativa?
Quais benefícios e riscos estamos aceitando em cada escolha?
E qual dessas possibilidades faz mais sentido para este paciente?
Essa maneira de pensar é particularmente importante porque cirurgia plástica raramente envolve uma única solução possível.
Existem escolhas e trade-offs.
Uma cicatriz menor, por exemplo, nem sempre representa uma cirurgia melhor se limitar a correção necessária.
Retirar mais tecido nem sempre produz um resultado melhor.
Utilizar uma tecnologia mais nova não significa automaticamente aumentar segurança ou qualidade.
A melhor decisão não é necessariamente a mais nova, a mais agressiva ou a que produz a fotografia mais impressionante. É aquela que apresenta uma relação adequada entre indicação, evidência, benefício, risco e características individuais.
Essa discussão vai além da cirurgia plástica
Essa forma de pensar não está restrita ao meu trabalho no centro cirúrgico.
Em 2025, tive a oportunidade de realizar a palestra de abertura oficial do 25º Fórum das Entidades Médicas de Santa Catarina (FEMESC), promovido pelo Conselho Superior das Entidades Médicas de Santa Catarina (COSEMESC), na sede do CRM-SC, em Florianópolis.
O tema da apresentação foi “Inteligência Artificial na Medicina: o futuro já começou?”
Naquele encontro, discuti como inteligência artificial, tecnologia e análise de dados podem apoiar a prática médica quando utilizadas com critérios científicos, éticos e humanos.
A discussão partia de um princípio que também procuro aplicar à minha prática clínica: a tecnologia deve ampliar nossa capacidade de compreender evidências e utilizar dados para tomar decisões melhores — sem substituir o julgamento e a responsabilidade do médico.
A palestra de abertura e essa discussão sobre o futuro da prática médica foram registradas pelo Conselho Regional de Medicina de Santa Catarina.
→ Leia a reportagem do CRM-SC sobre a palestra de abertura do 25º FEMESC.
Esse mesmo raciocínio pode ser aplicado à cirurgia plástica.
Não considero adequado utilizar uma tecnologia simplesmente porque ela é nova.
Não escolho uma técnica apenas porque ela se tornou popular.
E não considero um resultado individual suficiente para demonstrar que determinado tratamento seja superior a outro.
Procuro compreender os dados, a qualidade das evidências e, principalmente, se aquela informação pode ser aplicada à pessoa que está diante de mim.
Tecnologia sem evidência pode ser apenas novidade. Dados sem contexto podem ser apenas números. O papel do médico é transformar evidência, dados, experiência e contexto em uma decisão responsável.
A palestra de abertura e essa discussão sobre o futuro da prática médica foram registradas pelo Conselho Regional de Medicina de Santa Catarina.
→ Leia a reportagem do CRM-SC sobre a palestra de abertura do 25º FEMESC.
Por que não baseio minha comunicação em resultados espetaculares?
Porque minha prática não é construída para produzir conteúdo.
O conteúdo deve refletir a prática — e não determinar a prática.
Essa diferença é importante.
Não quero que uma pessoa procure meu consultório acreditando que posso reproduzir nela o resultado que viu em outra paciente.
Prefiro que ela chegue à consulta porque compreendeu minha maneira de pensar e deseja discutir, com responsabilidade, o que pode ou não fazer sentido para ela.
Isso muda a pergunta.
Em vez de:
“Você consegue me deixar igual a esta foto?”
podemos começar por:
“O que está acontecendo com a minha anatomia e quais possibilidades existem para o meu caso?”
Para mim, essa segunda conversa está muito mais próxima da medicina que procuro exercer.
Isso significa que fotografias não têm importância na cirurgia plástica?
Não.
Fotografias são extremamente importantes.
Utilizo documentação fotográfica clínica para avaliação, planejamento, acompanhamento da evolução e registro médico, respeitando privacidade, consentimento e proteção das informações do paciente.
Também existem situações científicas e educacionais em que imagens são importantes para compreender técnicas, anatomia, complicações e resultados.
Minha escolha é diferente:
não utilizar o antes e depois como principal ferramenta de convencimento do paciente.
São coisas distintas.
O paciente tem direito de conhecer resultados possíveis?
Naturalmente.
E considero essa conversa indispensável.
Mas conhecer possibilidades também significa compreender limitações, riscos, cicatrizes, tempo de recuperação, possíveis resultados insatisfatórios e, eventualmente, necessidade de procedimentos adicionais.
É justamente essa contextualização que a regulamentação atual do Conselho Federal de Medicina procura estabelecer ao disciplinar a demonstração de resultados.
Mostrar aquilo que deu certo é diferente de explicar tudo aquilo que pode acontecer.
Como escolher um cirurgião plástico?
Não acredito que essa decisão deva ser baseada apenas na fotografia mais bonita encontrada em uma rede social.
Observe a formação do médico e verifique se ele possui registro da especialidade.
Procure compreender onde ele opera, como organiza a segurança, como realiza o acompanhamento e, principalmente, como raciocina diante de uma indicação.
Pergunte por que determinada técnica foi indicada.
Pergunte quais são as alternativas.
Pergunte quais são os riscos.
Pergunte o que acontecerá se você decidir não operar.
E, quando uma nova tecnologia ou tratamento estiver sendo proposto, faça uma pergunta que considero particularmente importante:
“Que evidências sustentam essa indicação?”
Um médico não precisa ter todas as respostas.
Mas deve conseguir explicar por que está propondo determinado caminho.
Ética, ciência e dados não são diferenciais. São fundamentos.
Não considero ética médica uma estratégia de marketing.
Da mesma forma, medicina baseada em evidências e tomada de decisão orientada por dados não deveriam ser apresentadas como luxo ou novidade.
São fundamentos da medicina que procuro exercer.
A tecnologia continuará evoluindo. Novas técnicas aparecerão. Inteligência artificial, análise de dados e novas ferramentas certamente modificarão parte da maneira como planejamos e acompanhamos nossos pacientes.
Pretendo continuar estudando e incorporando aquilo que demonstrar valor para minha prática e para meus pacientes.
Mas existe um princípio que não deveria mudar:
a tecnologia pode melhorar nossa capacidade de decidir. Ela não substitui a responsabilidade de decidir bem.
É por isso que você encontrará neste site muitos conteúdos explicando anatomia, indicação, segurança, riscos, evidências, alternativas e critérios de decisão — e não uma sequência de fotografias tentando sugerir que o resultado obtido por outra pessoa será também o seu.
Prefiro que minha prática seja compreendida pela coerência entre ciência, experiência, dados e responsabilidade médica.
E que uma eventual cirurgia seja consequência de uma decisão bem construída — não de uma fotografia.
Fontes e referências
Conselho Regional de Medicina do Estado de Santa Catarina (CRM-SC). 25º FEMESC reúne lideranças médicas para debater ensino, prática e futuro da profissão. Registro institucional do Fórum e da palestra de abertura “Inteligência Artificial na Medicina: o futuro já começou ? ”
Conselho Federal de Medicina (CFM). Resolução CFM nº 2.336/2023 e Manual de Publicidade Médica. Regulamentam a publicidade e a propaganda médicas e estabelecem os critérios para utilização de imagens de pacientes e demonstração educativa de resultados.
LINK: página oficial de Publicidade Médica do CFM.
Conselho Federal de Medicina (CFM). Manual de Publicidade Médica — Uso de imagens. Orienta a aplicação prática das regras para demonstração de antes e depois, incluindo contextualização educativa, apresentação de diferentes pacientes e informação sobre possíveis resultados insatisfatórios e complicações.
LINK: Capítulo XII — Uso de Imagens, no Manual de Publicidade Médica.
Conselho Regional de Medicina do Estado de Santa Catarina (CRM-SC). 25º FEMESC reúne lideranças médicas para debater ensino, prática e futuro da profissão. Registro institucional do Fórum e da palestra de abertura “Inteligência Artificial na Medicina: o futuro já começou?”.
LINK: Reportagem oficial do CRM-SC.
Associação Catarinense de Medicina (ACM). XXV FEMESC — União dos médicos catarinenses defende a profissão e a qualidade da saúde à população. Registro institucional da palestra e da discussão sobre utilização ética e responsável da inteligência artificial na prática médica.
LINK: Reportagem oficial da ACM
As informações apresentadas neste artigo têm finalidade educativa e não substituem avaliação médica individualizada.
Dr. Leonardo Aguiar
Cirurgião Plástico
CRM-SC 9847 | RQE 8345
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