Os novos dados da ISAPS mostram a liderança brasileira e reforçam a importância de indicações responsáveis e segurança no cuidado ao paciente.
**Brasil lidera o mundo em cirurgias plásticas: o que os novos dados da ISAPS revelam?**
O Brasil mantém uma relação muito particular com a cirurgia plástica. Técnica, formação profissional, pesquisa e uma longa tradição na especialidade ajudaram o país a ocupar uma posição de destaque internacional.
Agora, novos dados mostram a dimensão desse cenário.
O Global Survey 2025, divulgado pela International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS), contabilizou mais de 35 milhões de procedimentos estéticos realizados no mundo em 2025. Desse total, aproximadamente 17,9 milhões foram procedimentos cirúrgicos e 17,3 milhões, não cirúrgicos.
O Brasil aparece em segundo lugar quando são somados todos os procedimentos, atrás dos Estados Unidos. Mas existe uma diferença importante:
quando analisamos apenas as cirurgias plásticas, o Brasil ocupa o primeiro lugar mundial.
Foram aproximadamente 2,3 milhões de procedimentos cirúrgicos no país, dentro de um total de cerca de 3,2 milhões de procedimentos estéticos.
**Quais são as cirurgias plásticas mais realizadas no mundo?**
Os dados também ajudam a entender como a procura por cirurgia plástica está mudando.
Segundo o levantamento da ISAPS, entre as cirurgias estéticas mais realizadas mundialmente em 2025 estão:
- blefaroplastia;
- lipoaspiração;
- aumento mamário;
- mastopexia;
- abdominoplastia.
Entre elas, dois movimentos chamam particularmente a atenção.
A blefaroplastia ultrapassou 2,4 milhões de procedimentos e apresentou o maior crescimento absoluto entre as cirurgias pesquisadas. Já a mastopexia apresentou crescimento expressivo, de 48% entre as mulheres.
Esses números são interessantes, mas precisam ser interpretados com cuidado. Uma estatística mostra aquilo que está acontecendo em uma população; ela não determina qual procedimento é indicado para uma pessoa.
**Ser líder mundial também aumenta nossa responsabilidade**
Talvez essa seja, para mim, a principal reflexão trazida pelos novos dados.
Quanto maior o número de pessoas interessadas em cirurgia plástica, maior precisa ser nossa preocupação com informação, indicação correta e segurança do paciente.
Cirurgia plástica continua sendo cirurgia.
Antes de discutir técnica, tamanho da cicatriz ou tempo de recuperação, existem questões ainda mais importantes: as condições clínicas do paciente, a qualificação do cirurgião, o planejamento anestésico, a estrutura onde o procedimento será realizado e a capacidade de atendimento caso ocorra alguma intercorrência.
O próprio levantamento da ISAPS mostra que 48,7% dos procedimentos estéticos pesquisados mundialmente são realizados em hospitais, enquanto 29,8% acontecem em estruturas de consultório (office facilities).
Isso não significa que exista um único local adequado para todos os procedimentos. Significa que estrutura, complexidade da cirurgia e condições individuais do paciente precisam ser consideradas em conjunto.
**Mais procedimentos não significam necessariamente melhores indicações**
A popularidade de uma cirurgia nunca deveria ser utilizada isoladamente como justificativa para realizá-la.
Na consulta, a pergunta não deveria ser apenas:
“Qual cirurgia eu quero fazer?”
Muitas vezes, existe uma pergunta anterior e mais importante:
“Qual é realmente o problema que estamos tentando tratar?”
Essa diferença parece pequena, mas pode mudar completamente o planejamento.
Na cirurgia facial, por exemplo, uma pessoa que procura uma blefaroplastia pode apresentar alterações relacionadas às pálpebras, mas também à posição das sobrancelhas ou ao envelhecimento de outras estruturas da face.
Da mesma forma, no contorno corporal, lipoaspiração e abdominoplastia tratam problemas diferentes e podem ou não ser indicadas para a mesma pessoa.
O procedimento deve ser consequência do diagnóstico e da indicação — e não o contrário.
**O Brasil e a tradição da cirurgia plástica**
Existe também uma dimensão histórica importante nesses números.
A cirurgia plástica brasileira construiu reconhecimento internacional por meio de gerações de cirurgiões, pesquisa, inovação e escolas de formação que ajudaram a influenciar a especialidade em diferentes partes do mundo.
Tive a oportunidade de viver parte dessa tradição durante minha formação no Instituto Ivo Pitanguy, no Rio de Janeiro.
Uma das lições que permanece atual, mesmo diante de toda a evolução tecnológica, é que cirurgia plástica não deve ser reduzida à execução de uma técnica.
Ela começa na avaliação do paciente.
Compreender anatomia, expectativas, limites e riscos faz parte do procedimento tanto quanto o próprio ato cirúrgico.
**O futuro provavelmente será mais tecnológico — e também deverá ser mais seguro**
Hoje dispomos de recursos que não existiam há algumas décadas: novos equipamentos, técnicas cirúrgicas mais refinadas, monitorização, fotografia digital, ferramentas de planejamento e, mais recentemente, inteligência artificial.
Tudo isso pode contribuir para a medicina.
Mas tecnologia não substitui indicação.
Quanto mais recursos tivermos disponíveis, maior será a necessidade de utilizá-los com critério, responsabilidade e conhecimento.
Por isso, talvez o dado mais importante do novo levantamento não seja simplesmente que o Brasil é o país que mais realiza cirurgias plásticas no mundo.
É perceber a responsabilidade que acompanha essa posição.
O avanço da cirurgia plástica precisa ser medido não apenas pelo número de procedimentos realizados, mas pela nossa capacidade de oferecer melhores indicações, mais segurança e uma experiência de cuidado cada vez melhor para o paciente.
Fonte: ISAPS Global Survey on Aesthetic/Cosmetic Procedures Performed in 2025, divulgado em 29 de setembro de 2026.